Puzzle, de Marcelo Marat
Marcelo Marat é um cineasta independente de Belém do Pará. Oriundo do fecundo ramo dos quadrinistas belenenses ele, em 2010, deu luz a um dos mais intrigantes filmes feitos em terras paraenses, Puzzle. Esse filme é feito de recortes dos filmes incompletos (e completos) que Marat vem produzindo desde 2007. O quebra-cabeça a que o título se refere constitui-se da organização desorganizada dessas imagens em um só contexto. O filme é um convite para entrarmos na mente de Marat, adornada dos mitos góticos a partir de Poe e Lovecraft ,que se arriscam ao abismo de um ser que não pertence a sua era, está deslocado em tempo e espaço, mas não finge um autismo “artístico” Marat filma Belém, nas câmeras mais vagabundas, como poucos. Em tempos de Paulo Biscaia e seu fetiche ridículo em filmes como Morgue Story e, principalmente, o horripilante (no pior sentido possível) Nevermore, é de Belém que se produz o horror verdadeiro nascido de um homem que grita dos esgotos de uma cidade suja e onírica, ao invés de gastar dinheiro do papai (literalmente ou como metáfora pro estado) para fazer suas brincadeiras fúteis.
Cauby
Kenneth Anger
Kenneth Anger é um cineasta estadunidense. Isso implica em sua obra um gosto pelo pop, pelo fetiche enraizado que o povo dos EUA tem por seus ícones de consumo. Seus personagens adornam-se de um furor sexual transmitido através da figura material desses corpos em roupas de borracha, nas máquinas turbinadas que por baixo do frio metal combusta o ardor de um povo. Anger pretende essa libertação, a implosão do sexo no seio da América.
Cauby
(des)Limite
Limite é um filme narrativo. Conta a história do amor enquanto prisão e da fuga como dilaceramento. Em sua tragédia não existe redenção possível. A proto-imagem que alimenta e movimenta o filme inteiro (o rosto da mulher encara a câmera/espectador, enquanto as mãos algemadas do homem são os limites de si e dela) preludia a viagem de 3 companheiros silenciosos pelo naufrágio da vida.
Na proa, a mulher altiva, que entra no mundo do trabalho pelos planos-detalhe.
No centro, o homem cansado, que empelido pela câmera teve um encontro amaldiçoado com o diretor do filme em um cemitério.
Na popa, a mulher derrotada, cuja perturbação voa como um pássaro ferido na beira da praia.
Entre eles, nós. O mar.
Miguel Haoni
Man With Mirror
Quando Guy Sherwin reprojetou “Man With Mirror”, trabalho de 1976, sobre si em 2011, ele abriu um portal sobre a dimensão fractal do tempo. O homem projeção/tela não era o mesmo, nem o espelho, muito menos a paisagem refletida. Mas a coexistência de diferentes objetos (que não deixaram de ser os mesmos com o tempo) provoca uma fantasmagoria do artista e da obra. No registro, os sons de tensão do ambiente, as luzes e sombras indecifráveis, o distante choro da criança, tudo compõe a ritualística de um instante único (eternamente reprodutível).
Miguel Haoni
Wavelenght
Em 1967, Comprimento de Onda é um falso travelling de 40 minutos rumo ao mar (o seu registro fotográfico afixado do outro lado da sala). Entre uma coisa e outra, o abismo da imagem: luzes lentas, 4 janelas, “let me take you down”, pessoas dentro, carros fora.
Em 2003, Comprimento de Onda (Pros que não têm tempo) é a sobreposição de todos os tempos contidos na versão original (comprimidos em 15 minutos). Uma psicótico e lento passeio pela memória rarefeita do filme original: luzes rápidas, 4×4 janelas, “‘cause I’m going to”, carros dentro, pessoas fora.
Miguel Haoni
Alone. Life Wastes Andy Hardy
O trabalho de reescrita fílmica empreendido por Martin Arnold é impressionante. A partir de fragmentos da série Andy Hardy (1937-1958), reduzidos a unidades audiovisuais elementares, o reencenador apresenta uma comédia erótica deformada sobre um cacarejante triângulo amoroso. As idas e vindas do filme fabricam um novo idioma para Judy Garland e as repetições transformam um simples beijo em um contato interminável.
Miguel Haoni
Peter Tscherkassky
Peter Tscherkassky é inserido dentro da tradição dos cineastas que fazem filmes de arquivo, ou seja, filmes feitos a partir de matérias filmados por outros. Por essa definição é realmente muito fácil atribuir essa alcunha a Tscherkassky; realmente ele trabalha com material de arquivo, mas o que ele faz com isso é completamente diferente de todos os outros cineastas desse “gênero”. Filmes como A movie de Bruce Conner ou os de Martin Arnold pretendem um estudo psicológico, antropológico, genealógico da história do cinema (ou das imagens movimento, como preferirem), é um trabalho denso de encontrar discursos ali que se manifestem para além dos filmes, o papel da mulher em Holywood, por exemplo. Conner demonstra a fragilidade dos discursos ao associar criativamente imagens e extrair sentidos outros delas (a montagem soviética é regra). Tscherkassky é outra coisa (para mim outro patamar), ele transforma as imagens compondo quadros de recortes extremamente sinistros e belos na sua forma. Ele respeita o cinema, os discursos do cinema ao ponto de fazer filmes de terror, fazer westerns etc. Se em vários dos filmes de arquivo percebemos um artifício por vezes inocente e preconceituoso de montagem em relação aos filmes que eles utilizam como base, o austríaco parece estar tão somente fazendo um filme dele. A destruição das imagens no cinema de Tscherkassky pretende-se um trabalho de ourivesaria difícil, a questão não é achar o momento e sim construir a partir da pérola outra pérola, mais torta e bizarra, mas igualmente bonita.
Cauby





